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Líderes muçulmanos condenam Estado


4 de setembro de 2014, 21h09

Líderes muçulmanos emitem sentença religiosa contra os jihadistas que lutam na Síria e no Iraque. Especialistas e signatários esperam que ela possa influenciar simpatizantes e ajudar a deter os terroristas.

Os imãs britânicos não podiam ter sido mais claros em sua fatwa contra a milícia terrorista EI (Estado Islâmico). “O EI é uma organização extremista herética, e é religiosamente proibido (haram: termo usado no Islã para se referir a qualquer coisa que é proibida pela fé) apoiá-la ou unir-se a ela. Além disso, é obrigação para os muçulmanos britânicos opor-se ativamente a essa ideologia venenosa, especialmente quando ela for promovida no Reino Unido.”

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Avanço de jihadistas leva Iraque a nova onda de violência177 fotos

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4.set.2014 – Combatentes curdos tiram foto para comemorar a retomada da aldeia Buyuk Yeniga, que antes estava sob controle do EI (Estado Islâmico) Ahmed Jadallah/Reuters

A fatwa, sentença religiosa islâmica, foi assinada por seis líderes religiosos muçulmanos britânicos: os imãs supremos das duas mesquitas centrais de Leicester e Manchester, o imã supremo da mesquita de Makkah em Leeds, o codiretor da Associação dos Muçulmanos Britânicos, o fundador do Conselho Islâmico do Reino Unido, assim como Usama Hasan, o autor da fatwa e diretor para questões teológicas da Fundação Quilliam, think tank (organização que difunde conhecimento sobre assuntos estratégicos) especializado em extremismo religioso muçulmano.

Acusações graves

O texto afirma que o EI assassinou jornalistas, civis e imãs que se rejeitaram a apoiar a organização e que escraviza mulheres e filhos de seus adversários, violando a Convenção de Genebra e as convenções contra a escravidão.
“A perseguição e os massacres de muçulmanos xiitas, cristãos e yazidis são abomináveis e contrários aos ensinamentos islâmicos e à tolerância islâmica apresentada por grandes impérios, como o mongol e o otomano”, prossegue o documento.

A condenação dos muçulmanos britânicos não é a primeira de seu tipo. Poucas semanas atrás, teólogos da Universidade Al-Azhar, do Cairo, emitiram uma fatwa contra o EI, da mesma forma que, antes, teólogos da Arábia Saudita, no final de julho.

Ressalte-se que os principais suspeitos das decapitações de dois jornalistas americanos são membros britânicos do Estado Islâmico.

Arte/UOL

Cidades sob controle do Estado Islâmico ou sob ameaça de ataques na Síria e Iraque

Possível impacto da fatwa

“O parecer jurídico islâmico do Reino Unido pode influir de diversas formas”, opina Stephan Rosiny, especialista em Oriente Médio do Instituto Alemão para Estudos Globais e Regionais (Giga), de Hamburgo.

Ele antecipa que os combatentes e simpatizantes do Estado Islâmico certamente não vão se deixar impressionar pela fatwa. “Porque, na opinião deles, todos os muçulmanos que não reconhecem o califa do ‘Estado islâmico’ são infiéis. Por isso, não consideram os imãs que emitiram essa fatwa como autoridades legítimas.”

Já outros muçulmanos, mesmo simpatizando politicamente com o EI, podem ser bastante receptivos à fatwa. Uma discussão teológica pode vir a minar a credibilidade do grupo extremista a médio prazo. “No fim das contas, o EI só pode ser ideologicamente desencantado a partir da comunidade sunita, por líderes religiosos sunitas. Deve-se retirar sua legitimidade religiosa questionando, por exemplo, os critérios para a declaração de seu ‘califado’ e refutando a justificação religiosa para o terrorismo no Iraque e na Síria “, sugere Rosiny.

“Ideologia de inspiração religiosa”

Também Usama Hasan, o autor da fatwa, acredita que o texto possa dar algum resultado –pelo menos entre aqueles que se orientam pelas autoridades sunitas tradicionais. No entanto, como disse numa entrevista anterior à DW, na Síria e no Iraque também está lutando gente que persegue outros objetivos, cujo interesse, acima de tudo, é chegar ao poder.

“Por isso, é muito útil para eles se unirem também a combatentes motivados pela religião, que realmente acreditam na religião. Eles se juntam a eles, mesmo sem serem realmente crentes. Nesse momento, a religião se mistura com a política e se torna uma mera luta pelo poder.”

Hasan acredita que, neste contexto, considerações religiosas desempenham um papel secundário. Elas servem essencialmente como pretexto para chegar a outros objetivos. “É uma ideologia inspirada pela religião. Pode-se defini-la como um islã político levado ao extremo, que justifica a violência para estabelecer um Estado islâmico.”

Stephan Rosiny concorda. Ele acredita que o EI tem construído seu domínio sobre um arcabouço pseudorreligioso, criado a partir de fragmentos islâmicos arcaicos. “Isso inclui a proclamação do ‘Segundo Califado Rashidun’, que tenta, assim, dar continuidade aos quatro primeiros califas ‘bem guiados’ de 632 a 661. O primeiro sermão de sexta-feira do califa Ibrahim foi salpicado com símbolos religiosos dos primórdios do islã, com os quais se tenta despertar a aparência de autenticidade religiosa.”

Essas emoções religiosas se reforçariam e confirmariam até certo ponto, na opinião do especialista, quando são associadas a sucessos militares como os obtidos até agora pelo Estado islâmico. É como se os resultados fossem a prova de que eles agem a serviço de Deus.

Para derrotar o Estado Islâmico são necessárias duas coisas, aponta Rosiny: “Por um lado, força militar que interrompa e quebre essa cronologia de sucessos; e, por outro lado, autoridades teológicas que coloquem em questão a legitimidade religiosa.” Só então a euforia religiosa dos jihadistas e o contínuo alistamento de novos combatentes poderão ser sustados.

Entenda a novo conflito no Iraque
  • A origem

    O grupo islâmico sunita Estado Islâmico vem crescendo desde que as tropas americanas saíram do Iraque, em 2011. Desde 6 de junho, já tomou Mosul, segunda maior cidade e bastião da resistência à ocupação dos EUA e aliados, e controla grandes áreas do Iraque e da Síria

  • O que é o Estado Islâmico?

    O Estado Islâmico (EI) é um grupo islamita sunita que declarou ter criado um califado nas áreas sob o seu controle no Iraque e no Levante (parte de Síria e Líbano). Seu principal líder é Abu Bakr al-Baghdadi. Surgiu da união de grupos que lutaram contra a ocupação do Iraque pelos EUA

  • Qual a força do EI?

    O grupo, que recebe grandes doações secretas de dinheiro, tem milhares de militantes, inclusive “jihadistas” americanos e europeus, e se aproveita da disputa entre o governo de Nouri al Maliki, apoiado pelos xiitas, e a minoria sunita, para conquistar espaço. É um movimento dissidente da rede terrorista Al Qaeda

  • O que é um califado?

    É uma forma de governo centrada na figura do califa, que seria um sucessor da autoridade política do profeta Maomé, com atribuições de chefe de Estado e líder político do mundo islâmico. Ele tem o poder de aplicar a lei islâmica (sharia)

  • Que grupos estão na mira do EI?

    Entre as vítimas do avanço do EI estão cerca de 50 mil membros da minoria yazidi. Eles estão isolados em montanhas no noroeste do Iraque, sem comida nem água, depois de terem fugido de suas casas. O EI também tem perseguido cristãos no Iraque, chegando a crucificar muitos dos que são capturados. Mulheres tem sido forçadas a se submeter à mutilação genital e usar véus cobrindo o corpo inteiro

  • Qual o papel dos EUA?

    Alegando o risco de “genocídio”, o presidente dos EUA, Barack Obama, determinou o bombardeio de áreas controladas pelos militantes do EI no norte do país. Os EUA também estão fornecendo armas e munição aos curdos para que combatam o movimento no norte do país




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