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O ‘e’ e a vírgula são inimigos?


4 de setembro de 2014, 23h09

O texto da semana passada rendeu. Não foram poucos os leitores que escreveram para pedir que eu continue a série ou que eu fale de casos em que se emprega a vírgula (o último texto privilegiou casos em que não se emprega a vírgula).

Pois bem. Na verdade, na semana passada, cheguei à Redação com o firme propósito de escrever sobre a pontuação presente (e a ausente) num título da Folha, fato que me levaria a falar de casos em que se emprega a vírgula. Quando dei por mim, o espaço já estava acabando, e eu ainda estava nos comentários sobre alguns fundamentos da pontuação. O título que eu gostaria de ter comentado era este: “Dilma critica tarifaço e Aécio, inflação”.

Permita-me perguntar-lhe, caro leitor: você entendeu esse título de bate-pronto? Ou precisou relê-lo? Ouso afirmar que deve ter sido necessário relê-lo, já que, num primeiro momento, é quase impossível não achar que a crítica de Dilma tem alvo duplo: o tarifaço e Aécio. Quando se faz essa leitura, vê-se que a palavra “inflação” fica perdida, e aí é preciso recomeçar até “descobrir” o verdadeiro sentido da frase.

O fato é que no título jornalístico citado o “e” não liga termos que exercem a mesma função, como em “Dilma e Marina lideram as pesquisas”, em que “Dilma” e “Marina” exercem função igual, a de núcleo do sujeito composto. No título citado, o “e” liga duas orações: a primeira é “Dilma critica tarifaço”; a segunda é “e Aécio (critica) inflação”.

No título publicado, a vírgula que ocorre depois de “Aécio” é chamada por alguns de “vírgula vicária”, já que ela é empregada para evitar a repetição de um termo já utilizado (“Aécio, inflação” equivale a “Aécio critica inflação”).

E como fica a passagem inicial do título, aquela que nos faz achar que Dilma critica o tarifaço e Aécio? Pois bem. Aí também caberia uma vírgula, que separaria orações que são ligadas por “e” e têm sujeitos diferentes. Teríamos isto: “Dilma critica tarifaço, e Aécio, inflação”.

Melhorou? Melhorou, sim, já que a vírgula antes do “e” funciona como uma espécie de freio na “vontade” de achar que “tarifaço” e “Aécio” são complementos da forma verbal “critica”. Não são.

Convém dizer que, quando não há o risco da (falsa) impressão de que o termo que vem depois do “e” é mais um complemento do primeiro verbo, a vírgula antes do “e” não é de rigor: “Di María dá show em amistoso e Argentina goleia Alemanha”. Poderia ser posta uma vírgula (enfática) entre as duas orações? Poderia, já que elas são ligadas por “e” e têm sujeitos distintos, mas sem ela não se compromete a clareza da mensagem.

O que se vê em “Dilma critica tarifaço, e Aécio, inflação” ocorre nos textos formais, no padrão culto da língua, em que predomina a pontuação fundamentada na intenção de construir frases claras. Além dessa pontuação, seria possível também (e talvez melhor, mais palatável) eliminar o “e” e adotar outra solução: “Dilma critica tarifaço; Aécio, inflação”.

Entrou em cena um dos seres “misteriosos” da pontuação, o ponto e vírgula, que, como o próprio nome diz, é algo que fica entre a vírgula e o ponto. Um dos papéis do ponto e vírgula é justamente o de separar partes autônomas de um período composto, formado, como no caso visto, por orações que não são ligadas por uma conjunção.
Bem, como se viu, o “e” e a vírgula não são inimigos. É isso.

 

Pasquale Cipro Neto é professor de português desde 1975. Colaborador da Folha desde 1989, é o idealizador e apresentador do programa “Nossa Língua Portuguesa” e autor de várias obras didáticas e paradidáticas. Escreve às quintas na versão impressa de “Cotidiano”.




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